Pouco tempo depois de vir morar para esta casa, esteve cá um pintor meu amigo que achou que as paredes estavam muito vazias. O remédio era fácil: Fomos ao atelier dele e eu escolhi um quadro para a sala. Fica aí em exposição, disse ele. Sempre o vêem mais pessoas do que no atelier. E foi assim que entrou em minha casa o «Jardim Árabe» de Manuel Costa Cabral, o meu amigo pintor. Aos poucos, com o convívio que assim se criou, o quadro foi-se revelando e ao mesmo tempo foi revelando os seus segredos. Onde se via a representação de uma jarra azul no meio do verde vibrante da folhagem de um jardim, começavam agora a surgir outras representações possíveis da mesma jarra e da mesma folhagem. Como se o quadro escondesse outro, ou outros igualmente possíveis, que apenas aos poucos se fossem desvendando. Era como se o quadro tivesse sido pintado em diversas camadas sucessivas e cada uma apenas se revelasse ao sabor da luz do dia, ou outra, ou do ângulo com que a luz iluminava o jardim. A representação inicial, de uma pintura que vivia do forte contraste entre as cores criadas pela natureza, várias e moventes, e as cores criadas pelo homem, sólidas e permanentes, passara a ser um jogo entre essas duas figurações: com novas ramagens a emergirem, a virem ao de cima, a multiplicarem-se em vozes e movimentos diferentes. E tudo isso nos parecia possível, e deslumbrante, e novo. Que é um exagero, dirão alguns. Será, mas foram as palavras que me vieram para explicar a «descoberta» do quadro que há pouco chegara a nossa casa, do maravilhamento que pode acompanhar o convívio próximo com uma obra de arte. Podia ser um livro, talvez – e sinto que aqui mais alguns me acompanharão – ou uma música. Ou até uma pessoa. Há livros que se esgotam numa leitura. Conhecida a intriga, a história, nada mais há a descobrir. Possivelmente nunca mais voltaremos a pegar nele. Outros há, porém, que nos seguem pela vida fora e a cada leitura nos fazem vibrar pelo que redescobrimos e pelo que descobrimos de novo. É possível que alguma coisa da fulguração inicial, do maravilhamento da descoberta, se vá atenuando e embotando com o convívio continuado e as emoções latentes despertem agora em assomos, como quando nos lembramos do que, de quem, já fomos. Alguma coisa de nós passou a estar ali. Sentíamos que o quadro sempre ali estivera, que se apoderara daquele espaço, e de nós, de certo modo.
Tínhamos de o comprar, decidimos. Antes que o pintor mudasse de ideias ou o vendesse a outros. Renunciámos à moradia na Comporta, às férias nas ilhas paradisíacas da agência de viagens e decidimos fazer uma proposta ao pintor. E ele disse que sim, que vendia o quadro, mas que o preço é que não podia ser aquele. E (antes que eu caísse para o lado) concluiu: fica por metade disso e uma bacalhoada em tua casa. E assim foi
Esteve há pouco fora daqui numa exposição retrospetiva da pintura do Manuel Costa Cabral. E, durante um mês, mais do que outra coisa, a parede despida marcava para nós, os que cá vivemos, um vazio maior do que o deixado pelo quadro. Voltou agora. Mas não veio só: acompanha-o outro quadro (da série «Fonte») que conhecemos na exposição e que convencemos o Manel a vender-nos. Ainda não escolheu a parede onde ficará. Mas já está assente: depois disso haverá uma «vernissage» à séria, com a presença do autor, como os usos mandam. E para ela ficam desde já convidados todos os que isto lêem (Depois receberão as outras informações necessárias, morada, data e programa). Têm é de avisar desde já, que é para sabermos quanto havemos de comprar de tremoços.
A primeira baixa foi uma pequena cerejeira: quase brava, quase mirrada, há anos que vivia uma vida resignada numa espécie de canteiro diante do que sobrevivia do antigo quartel da Graça. Nada de ramarias frondosas, não havia nela nada de exuberante e mesmo os frutos nunca chegavam a ganhar aquele rubro rutilante das cerejas dos anúncios e dos desenhos das crianças: antes esverdeados, agros, só a passarada dava por esse arremedo de cerejas e, mais por desfastio, lá as ia debicando à falta de melhor. Mesmo assim, ao vê-la agora mutilada, toscamente decepada, sinto a falta dela, daquela presença apagada, feita da tristeza mansa, vegetal, que se calhar lhe vinha da proximidade com a aridez militar que seca à sua volta tudo o que é vivo.
O Hotel partiu à conquista do Quartel e a pequena cerejeira é assim a sua primeira baixa. É uma morte figurada, diria, quase um símbolo e pouco mais. Provavelmente ninguém se lembrará mais dela e se calhar nem a pouca lenha que restou será de algum préstimo para quem quer que seja. Talvez que a única memória que dela restará sejam as fotografias com a fachada do Quartel usadas nos cartazes contra a venda do Quartel e do Convento da Graça ao Grupo Sana, donos já de uma série de hotéis na cidade e com uma longa história de voracidade e negociatas que até aos Panama Papers chegou. Mas isso… A quem pedir contas? Os grupos financeiros fazem o que sabem fazer e aquilo para que existem. Se alguma coisa de vital para o comum dos mortais é arrastada nessa voragem, mais valeria ir pedir contas a quem lhes abre as portas, os acordos, as leis. Que é o que tentou fazer (e ainda tenta!) uma parte da juventude daqui do bairro. Organizaram-se num pequeno movimento (“hotel-no-quartel”), promoveram assembleias e reuniões, marchas, comícios e tudo o que havia à mão para tentar acordar a gente do bairro para o que aí vinha. As primeiras assembleias foram bastante concorridas. Apareceu gente, e gente variada, e começaram a formar grupos de trabalho para levar a empresa avante, o protesto pela ocupação desenfreada dos espaços públicos do bairro. Há um grupo que estuda o ângulo jurídico da questão (a concessão à Sana tinha caducado sem que as obras fossem iniciadas); há um grupo de contactos com a Câmara, a Assembleia Municipal, a Junta de Freguesia e todas as outras portas onde seja possível ir bater; há grupos que colam cartazes e procuram informar a população e as associações populares (quase todas em estado comatoso, diga-se aqui entre nós). E ao mesmo tempo iam-se desenhando projetos (mais propriamente sonhos) para a ocupação do quartel uma vez devolvido à população – centro cultural, creche, cinema, teatro, atividades culturais… Todos sabemos como é quando se põe a funcionar esta etérea constante da vida, sobretudo quando tão pouco concreta e definida como neste caso. A frequência foi rareando, a pedalada foi abrandando – porque também essa é uma lei da vida, quando nos é pedido mais do que o normal quinhão da participação numa manifestação, numa petição, na fugaz indignação.
Às portas onde vão bater dizem-lhes o que são capazes de dizer e que é sempre pouco e vago. Todos querem e prometem “dar voz à juventude e aos seus sonhos, às legítimas aspirações das populações, à necessária restituição dos espaços públicos à Pólis para que deles o povo possa usufruir”. Isto tanto é assim na Graça como no resto da vasta desgraça que se abateu sobre Lisboa desde há muito. Mesmo aqui a poucos metros, o que foi o Hospital da Marinha é já uma amostra em estado avançado do Hotel que aí está a ser instalado (com umas cérceas levantadas, com uns acrescentos de pormenor e tal, mas de que ninguém dará conta, porque não há contas a dar a ninguém, essa é que é essa). A poucos passos, começam já as obras para o próximo (gigantesco) projeto de um hotel que irá ocupar o que começou por ser o Convento das Mónicas que foi há muito das religiosas de Santo Agostinho – dedicado a Santa Mónica, daí o nome – e que depois passou a casa de correcção de rapazes, depois a casa de correcção e cadeia das mulheres. Que uma tal dose de clausura e de cadeias venha a redundar em quartos de hotel não deixa de ser uma daquelas ironias da História como a que reservou destino semelhante ao palácio da Casa de Bragança na Baixa de Lisboa que serviu de cenário às torturas e humilhações aí infligidas pela Pide durante anos e anos. Depois do hotel feito quem se lembrará do que fica para trás? De como foi completamente alterada a dinâmica e o tecido social daquela parte da cidade, dos negócios e negociatas, das informações sigilosas e privilegiadas que para sempre ficarão no segredo daquelas paredes espessas? Uma coisa é certa: tudo será feito na “conformidade das leis, com a auscultação dos legítimos anseios das populações e dos seus representantes” («legitimamente eleitos», imperioso é acrescentar). E se as leis não se ajustarem ao que delas se pretende (já negociado e vendido e concedido que foi o projecto, já transformado em “legítimas expectativas dos investidores”) não hão de faltar por aí escritórios de advogados, facilitadores de negócios, lóbistas mais ou menos creditados, sempre capazes de lhes dar a volta que as há de levar ao sítio (às leis, entenda-se).
Penso nisso ao ler a última convocatória da gente do movimento contra o hotel, a dar contas das últimas ações realizadas, a lançar a ideia de «criar laços com as coletividades do bairro e organizar almoços comunitários conjuntos». E deixa-me isso quase com vergonha da minha falta de fé (e de pedalada!) E também me faz pensar na triste da cerejeira de que comecei por falar, agora despojo inútil de uma guerra vã, símbolo involuntário da mansa submissão com que tudo isto se passa.
Fui ontem chamado a dirimir (desculpem-me o latim) uma contenda, uma questão que de há algum tempo divide a nossa nação, o nosso povo e os putos do meu bairro. Lá a dirimi como pude, mas devo dizer que aquilo me encanitou a ponto de me deixar a questionar a relação que apesar de tudo mantenho com esta ditosa pátria minha amada e com os venerandos símbolos por que ela se faz amar. Conto já.
Levado pelo meu cão, ia eu a passar num jardinzito do bairro quando fui chamado por uns miúdos que lá andavam a brincar. A brincar pensava eu; na verdade estavam mas é às voltas com as questões com que todos nós nos defrontamos na vida mais tarde ou mais cedo. No caso deles mais para o cedo, mas talvez isso mesmo tornasse maior a instância com que lhes surgia. «Ó senhor!» chamaram. Era eu. E queriam que eu, autoridade que por insondáveis razões teriam por autorizada, desempatasse as opiniões que os dividiam e decidisse se a bandeirinha verde-rubra que um deles tinha na mão era (ou não era…) a bandeira da seleção nacional. Não saberiam nada de quinas e castelos nem de esferas armilares, estou convencido, mas na breve experiência deles (uns dez anitos…) era realmente essa a bandeira que acompanhava os grandes jogos da seleção, pelo menos desde que o entusiasmo e os incitamentos de um treinador (brasileiro) da seleção a desfraldou em todas as janelas e varandas deste nosso torrão lusitano. E, tirando o futebol, são poucas as vezes que vemos a bandeira aparecer espontaneamente nas ruas. Não era por isso de estranhar a dedução simples que os miúdos eram levados a fazer. Outros a fizeram, de outro modo e com intenções menos ingénuas talvez. Lembro-me de um humorista que desenhou a bandeira nacional com uma bola de futebol a substituir os venerandos símbolos das quinas, castelos e esfera armilar e como com isso ia deitando abaixo o Carmo e a Trindade.
Mas se formos a ver bem as coisas é capaz de não ser uma ideia tão destemperada como parece à primeira vista. A nossa primeiríssima bandeira, a de Dom Afonso Henriques, a da nossa Fundação, era um singelo pano branco com uma cruz azul celeste no meio. Não tínhamos então muito de que nos gabar ou para exibir e pegávamos no que mais estava em moda no que toca a bandeiras. Basta ver o que por aí vai de crucificações nas bandeiras das nações da época. Depois, à custa de muita sarrafusca e guerrilhas com sarracenos e castelhanos lá arranjámos as tais quinas e castelos com que engalanar o estandarte. E mais tarde, à custa de Índias, Áfricas e Brasis, lá viria também a tal esfera armilar, que de tão intrincada que é haveria de valer passados tempos bué de negativas em Desenho nas escolas portuguesas. Jean Némar, meu comparsa e confessor, que quando lhe convém se faz convenientemente passar pelo estrangeiro que não é, assegura-me que num breve inquérito que fez à sua volta nenhum dos portugueses inquiridos soube explicar (e muito menos desenhar!) a consagrada esfera armilar da bandeira. A fonte será suspeita, mas olhem que a conclusão é capaz de não andar muito longe da verdade.
Uma coisa é certa: sem mouros a combater, sem castelhanos a guerrear, idos os fumos da Índia, derretidos os ouros do Brasil, de que grandes feitos podemos hoje gabar-nos? Que glórias cantaremos? Que mais faria a Europa bradar à terra inteira que Portugal não pereceu? Os nossos egrégios avós que haviam de guiar-nos, a marchar marchar, contra os bretões, deixaram-nos, afinal, ultimatados, de crista baixa, atirados para as trincheiras enlameadas da Flandres, resignados à caminhada cabisbaixa de cinquenta anos a calar a desgraça. E é muito possível que a grande gesta do nosso tempo seja mais, afinal, a que nos emigrou daqui para fora sem armas nem bagagens por esses Pirinéus distantes até franças e araganças, que talvez não tivessem pimenta nem canela, mas tinham vacanças e segurança social.
Hoje, sem Condestáveis, sem Gamas, sem Albuquerques, sem qualquer Luís Vaz que se veja, porque não haveremos nós de cantar, hoje, os varões e os feitos que, nos dias de hoje, mostram ao mundo o esplendor de Portugal? Por esse mundo fora, sem sequer saberem onde fica Portugal, com que palavras nos saúdam os que nos recebem? Pois é: Eusébio! Figo! Pauleta! Ronaldo!… Talvez que os putos da Graça de que falei à entrada não estranhassem muito se no 10 de Junho vissem o Presidente condecorar os melhores marcadores do ano. Quem diz 10 de junho, diz outra data julgada mais apropriada, como a proposta pelo Ederzito que marcou o golo que nos valeu o título de campeão europeu em 2016. Assim como não estranharão ver esses ínclitos goleadores ombrear no Panteão Nacional com as nossas passadas glórias das Letras, das Artes e das Guerras. Pensarão – talvez com razão – que um Eusébio de hoje vale bem um Dom Fuas de outros tempos.
Não sei é se uma bandeira de bola ao centro poderia alguma vez inspirar a lealdade e a bravura de que deu mostras o porta-estandarte Duarte de Almeida, em 1476, na batalha do Toro. Tampouco sei se ainda hoje é assim que ele aparece nos manuais escolares, mas há toda uma geração que provavelmente nunca mais apagará da lembrança a imagem ensanguentada do bravo alferes que, depois de lhe deceparem a mão direita com que empunhava a bandeira, a agarrou com a mão esquerda e que depois de lhe deceparem também essa, «desesperado, toma o estandarte nos dentes, e rasgado, despedaçado, os olhos em fogo, resiste ainda, resiste sempre» até cair morto sob as lançadas dos castelhanos que então caíram sobre ele.
Com menos sangue, e talvez por isso menos memorável, o que temos hoje são coisas como a imagem, que vi já não sei onde, de um pastor que, de bandeira em punho, na solidão dos campos onde pastam as ovelhas, ouve num transístor o relato da final do Euro 2016. Ou então, vá lá, talvez dê ainda para encontrar o equivalente possível do alferes de outras eras no homem que, depois de cancelado o desfile do 25 de Abril durante o Covid, sobe solitário a avenida da Liberdade em Lisboa de bandeira nacional ao ombro.
Que dizem uns aos outros os gansos com a incessante grazinada em que passam o tempo? É que não páram – grasna um, outro responde, outro concorda, outro também, e por aí adiante, o tempo todo. Não só os gansos, outra bicharada também, mas eles mereceram a especial atenção de Konrad Lorenz, um estudioso do comportamento dos animais, que passou grande parte da vida a conviver com gansos, na natureza e na sua própria casa. E que «dizem» então os gansos uns aos outros, segundo ele? Isto: «Eu estou aqui. E tu também estás?» Ao que o outro responde: «Eu estou aqui. E tu também estás?» E assim incessantemente. Se formos a ver bem as coisas, não somos nisto muito diferentes, afinal. É capaz de não andar muito longe disso o que dizem as pessoas que ouvimos no comboio a telefonar para casa a cada estação que passam a dizer onde estão e pouco mais. Ou as «conversas» sussurradas entre a mãe e o filhinho bebé. Ou a troca de posts entre os putos nas redes sociais. As palavras não interessam pelo que dizem, mas sim pela função que cumprem: de afirmar a coesão do grupo, de assegurar a presença, de apaziguar a ansiedade e a inquietação. Como se as palavras deixassem de servir para comunicar uma mensagem e fossem, só por si, a própria mensagem. Ocupam o espaço que de outro modo seria preenchido pelo silêncio, com tudo o que ele pode ter de incerto, de inquietante ou ominoso.
São palavras que preenchem o espaço do que não se diz, ou do que não se quer dizer ou mesmo do que não se tem para dizer: palavras que são verbo de encher. Um verbo que se conjuga em todos os tempos e em todas as vozes. Não há quem não o decline à sua maneira, quem não desconverse quando a conversa não lhe agrada. Na política então nem se fala: o verbo de encher é usado como um bordão oportuno para pôr ao largo ou iludir as questões mais incómodas. Uma cassete sempre à mão, alguma consabida verborreia que pega nas palavras, que as despe de contexto e de significado, e que as despeja na pausa onde deveria haver uma resposta coerente. Quem não assistiu já a um debate em que sem se definirem os contornos dos conceitos que se usam cada um os puxa para o lado que quer ou lhe convém? Tanto há quem se gabe de ser «contra o sistema», como há quem acuse os outros de serem «contra o sistema», sem que alguém cuide em saber o que se entende por tal palavra. Tanto pode servir para denegrir ou desvalorizar tudo aquilo em que os outros acreditam como para defender o exato contrário. É uma desconversa que se trava no terreno do «toda-a-gente-sabe-o-que-isso-é», sem precisar de maior definição. Pode querer dizer tudo, que o mesmo é não dizer nada. É simplesmente verbo de encher.
Se o verbo de encher é tão usado no debate político é em grande parte porque, de tão indefiníveis e ambíguos, os conceitos que arrasta consigo dispensam-nos (a eles, aos políticos) de uma maior precisão na indicação de alternativas. É por isso em muitos casos a melhor saída para evitar a incomodidade de realidades que, pelo contrário, poderiam facilmente ser definidas e mesmo quantificadas. Como no caso dos gansos de Lorenz, a linguagem não comunica nada, não pretende comunicar nada – não passa de uma forma automática, quase gerada inconscientemente, do intuito de manter o bando unido e tranquilo. («Eu estou aqui; e tu também estás?»).
Veio-me isto à ideia ao ler um livro de Lorenz que trago entre mãos («O Anel do Rei Salomão»). Lorenz está sempre a prevenir que nada permite qualquer comparação entre a «linguagem» dos animais e a fala humana. Ao contrário de nós, que temos de aprender a falar, nos animais a «linguagem» é uma caraterística fixada geneticamente, desprovida de conteúdo simbólico e totalmente inconsciente. «A semelhança superficial entre os sons produzidos pelos animais e a linguagem humana diminui ainda mais à medida que se vai tornando claro que o animal, com todos estes sons e movimentos que exprimem as suas emoções, não tem de maneira nenhuma qualquer intenção consciente de influenciar os seus iguais.» É uma «fala» sem mensagem, porque a mensagem é a própria fala. E foi assim que o bom do Konrad Lorenz, sem que tal fosse a sua intenção, me deixou a pensar em muito do que ouço nos políticos que ouço. Mas também na oculta função da linguagem como algumas vezes a usamos. E nisso somos todos iguais. Todos não: o meu cão Chip sabe muito bem o que quer e arranja sempre maneira de me dizer o que quer. Mas ele não leu o Konrad Lorenz. Ou então é que usa algum anel semelhante ao do Rei Salomão que – diz a lenda – lhe dava o poder de entender os animais.
Foram já muitas as vezes em que a questão de Israel e da Palestina veio dar aqui a estes meus desabafos. Nestes últimos dias sobretudo tenho-me lembrado muitas vezes de um amigo israelita (a viver em Israel) e no que ele me disse uma vez que esteve em minha casa: que «tudo isto é uma perda de tempo e de vidas» [https://ze-lima.blog/2024/01/25/com-os-olhos-em-gaza/ ] Dei por mim agora a perguntar-me se por acaso tudo o que tem sucedido ultimamente em Israel e em Gaza lhe terá trazido algum consolo e alguma esperança. Tudo tem por trás a mão de Trump e o seu mais que suspeito pacifismo de última hora e são poucos os que acreditam que ele se mantenha em campo depois de ter marcado o penálti. E por isso alguém que costuma ler estas linhas também a mim me pôs a mesma pergunta, a querer saber se fiquei satisfeito com as notícias, se confio no que ele armou (ou desarmou…).
Nem que fosse o diabo!, foi o que eu respondi. Se com isso se põe termo ao sofrimento dos reféns sujeitos ao ódio fanático do Hamas, se com isso diminui o sofrimento de milhares e milhares de palestinianos vítimas de uma retaliação implacável por crimes que em nome deles foram cometidos e de que estão inocentes, que me importa a mim que se fique a dever aos cálculos, às maquinações ou às chantagens de que se serve Trump e o império americano? Fosse ele o diabo!
Mesmo se Israel continua a poder prolongar a ocupação de Gaza, a poder impor a fome como arma de controlo das populações, a poder decidir os movimentos e o futuro dos palestinianos em Gaza e no resto dos territórios ocupados, mesmo assim, todos respiraram aliviados. Muitos de nós, longe da vista, darão o caso por encerrado (eles agora que se amanhem) e talvez outros tantos se preparem para não pensar mais no assunto. Por mais que se saiba que nem Trump nem, muito menos, Netanyahu aceitam sequer a ideia do direito à autodeterminação dos palestinianos. E que do muito que se disse ficou muito mais por dizer. E por saber. E são muitas as perguntas. O Hamas libertou os reféns iaraelitas ainda vivos, mas não os corpos dos que entretanto foram mortos. Não sabemos como morreram – o Hamas atribui a culpa aos bombardeamentos indiscriminados de Israel. E diz que alguns estão ainda enterrados nos escombros, lavando-se as mãos do crime. Israel libertou à volta de dois mil palestinianos presos, muitos deles sem nunca terem sido acusados de coisa nenhuma. A não ser a de viverem em Gaza. Será que ao ler isto alguém se pergunta como é possível haver duas mil pessoas presas, sujeitas a todo o tipo de violência, sem nenhum controlo de quem quer que seja, como simples peças de troca, também eles reféns sem direitos nenhuns?
Como saber se Israel vai respeitar os compromissos assumidos? Nunca aceitou outros antes. Nunca aceitou nem uma das mais de cem resolução da ONU, porque haveria agora de o fazer? Não há nenhum plano para o estabelecimento de um Estado palestiniano, que muitos dizem ser a única solução possível para o conflito. Há países que reconheceram oficialmente um Estado palestiniano que apenas existe no papel. Onde estavam esses países quando este «acordo de paz» foi negociado?
A América (ou antes a «Magalândia») de Trump conseguiu impô-lo porque só ela detém os instrumentos capazes de fazer parar a guerra: as armas e o dinheiro. Netanyahu aceitou as condições apertado pela pressão interna, pelos que exigiam o regresso dos reféns, por alguns militares que começam a pôr em causa os fins e os meios, e pelas pressões internacionais. O Hamas aceitou (de má vontade) as condições, pressionado pelos países árabes que lhe fornecem as armas e os meios, porque se viu sem saída na frente armada e porque se vê cada vez mais contestado pela própria população de Gaza.
E Trump pode sonhar já com um imenso império imobiliário gerido por si e pela sua família, capaz de transformar Gaza no paraíso balnear idealizado por ele e pelo genro Kushner Ficou estabelecido que o plano de reconstrução de Gaza será orientado por um conselho onde terá assento privilegiado Tony Blair (talvez devido à sua prestação na guerra do Iraque) e será presidido pessoalmente pelo próprio Trump – uma jogada do género em que ele é mestre. A «reconstrução» promete: O genro de Trump já se posicionou (e já há muito tempo! Veja-se o que aqui ficou registado há algum tempo. Vão ver se tiverem uns minutos: https://ze-lima.blog/2024/11/15/israel-meu-remorso/ ), o Qatar já percebeu que as oportunidades de negócios e o Boeing 747 que ofereceu a Trump podem afinal valer dividendos ainda mais chorudos. E depois também é verdade… o mais difícil está feito: a demolição prévia está praticamente concluída. Se é questionável que o Exército de Israel seja «o exército mais moral do mundo», como publicamente se apresenta, ele é inquestionavelmente um Exército extremamente eficaz: Gaza está literalmente arrasada, como se vê pelas fotografias que nos vão chegando rompendo todos os bloqueios, apesar de Israel ter começado por se ver livre dos jornalistas e correspondentes internacionais, o que só por si já diz muito das intenções da invasão e da ocupação. Um Exército implacável também: essa destruição deliberada e sistemática apresenta-se como justificada pela necessidade de eliminar os apoios e esconderijos do Hamas. O que não explica é a destruição orientada de escolas, de hospitais, de serviços de apoio social, das instalações de organizações humanitárias. E o que não poderá nunca justificar-se é a destruição deliberada de cerca de oitenta por cento das terras cultiváveis. Gaza ficará dependente da ajuda alimentar durante muitos e muitos anos. E ainda haverá palestinianos que possam cultivar essas terras se elas puderem alguma vez ser recuperadas? Não sei. Numa sondagem recente feita em Israel, 82 por cento dos inquiridos estavam prontos a aceitar a limpeza étnica de Gaza. E 56 por cento aceitariam o mesmo em relação aos palestinianos que são cidadãos israelitas! E quem o poderá impedir? Duvido que a indignação internacional só por si o consiga. A únioca coisda qwu talvez o conseguisse seriam sanções económicas nos setores onde elas doem mais. Mas os Governos e os Estados tem razões que o coração desconhece. E as razões do poder e do dinheiro da América podem sobrepôr-se a muita coisa. Já vimos noutros casos que nenhum travão a detém. O desprezo, as humilhações, a prepotência com que Trump trata a Europa e os países que não se vergam à Sua vontade e interesses imperiais são a marca de um poder sem freios. Mas mesmo assim… Quem dirá não ao diabo se por uma vez ele escrever direito por linhas tortas?
Trump parece levar a sério a tarefa de preencher as condições para a atribuição de um prémio que continua a escapar-lhe, depois de ter sido atribuído a outros americanos que ele deve considerar abaixo da Sua dignidade, como Martin Luther King (um ativista pelos direitos cívicos dos negros americanos) e Cordel Hull (um dos fundadores da ONU), porque está a pensar é nos Presidentes americanos que o receberam (Roosevelt, W. Wilson, Carter, Obama, Obama, Obama!). Nunca mostrou grande vocação para salva-vidas, mas se «salvar vidas» é uma das condições… Ainda há pouco apresentou um extraordinário plano que, a ser posto em prática, poderá salvar muitas vidas em todo o mundo. Numa reunião da elite militar, convocada de todos os cantos do planeta onde a América tem bases militares pelo ministro da defesa (que Ele agora quer que seja “da Guerra”), e em que Trump fez questão em estar também presente, foram apresentados dois projetos decisivos para preparar as tropas para a difícil tarefa de defender a América (o que na gíria local quer dizer, «o mundo») – o Ministro apresentou (e determinou) o seu plano de proibir as barbas, os cortes de cabelo fora do comum, e as grandes barrigas dos militares. Mas Trump foi mais longe! Expôs um plano definitivo de acabar com um dos maiores flagelos mundiais. Nas sua próprias palavras: «Conseguimos uma grande paz através da força. A América é novamente respeitada como país. Com Biden não éramos respeitados. Todos o viam a cair pelas escadas abaixo todos os dias. Todos os dias, o tipo a cair pelas escadas abaixo. Então eu disse isto não é o nosso presidente. Não podemos aceitar isto. Eu sou muito cuidadoso. Sabem como é, quando desço as escadas para… como quando estou numas escadas como estas escadas, sou muito… ando muito devagar. Ninguém tem de bater record nenhum, basta fazer por não cair porque isso dá mau resultado. Alguns dos nossos presidentes caíram e isso tornou-se uma parte do leagdo que nos deixaram. Mas nós não queremos isso, é preciso andar bem e com cuidado. Não temos de bater record nenhum, temos de ter calma. Ter calma quando descemos, mas nada de… não descer as escadas a dançar. Isso, basta pensar no Obama, eu tinha zero respeito por ele como presidente, mas ele descia as escadas a dançar bebop aquelas escadas… Nunca vi uma coisa assim, da da da da da da da, bop, bop, bop, descia assim as escadas, sem se agarrar. Eu dizia, muito bem, eu não quero fazer isso. Estou convencido de que era capaz de o fazer, mas é sempre possível que as coisas corram mal e basta correr mal uma só vez.» E é digno de se ver aquela solene audiência das mais altas patentes do país, generais, almirantes e sei lá que mais, todos a fitar assombrados o seu comandantes em chefe, o admirável Donald Trump. Nunca lhes tinham falado nisso na Academia Militar.
Em Itália andam a vender aldeias ao desbarato. Em Sambuca na Sicília; em Chiaromonte, na Basilicata; em Bonnanaro, na Sardenha, e em muitos outros sítios vendem-se casas a um euro. E com as casas vende-se o sonho de repovoar, reabilitar e revitalizar essas terras pouco menos que abandonadas e que se definham aos poucos em lenta agonia. Claro que um euro é uma maneira de dizer: nas letrinhas pequeninas vem, claro, o resto: os impostos, os registos, e a obrigação de renovar a casa num prazo estabelecido. Mas ainda assim houve muitos que não resistiram ao apelo de uma casinha de postal ilustrado numa aldeia daquelas que já só se vêem nos filmes.
Por aqui ainda não chegamos tão longe, mas não se anda (andou) longe disso. Na serra da Lousã, e noutros sítios de que ouvi falar, vendiam-se ainda há pouco casas, pouco mais que ruínas às vezes, por preços capazes de aliciar muita gente que começa a procurar uma forma de vida mais próxima da natureza e dos ritmos vitais, como às vezes os ouço dizer nas reportagens da têvê. Vimos ressurgir lugares e aldeias, às vezes pela mão de estrangeiros (muitos alemães!) que se apegam à terra, fazem ressurgir profissões e até tradições que não eram deles, mas que viviam nas memórias dos poucos que tinham ficado para trás. Se não fosse isso, muitas dessas aldeias pouco mais seriam hoje do que precisamente essas memórias, que por sua vez já só resistem nos registos de algum estudioso dado a calcorrear os montes, ou tresmalhado de alguma Sardenha natal ou consumido por uma curiosidade sem fronteiras. E que assim as salvam da pior das mortes, do esquecimento.
É que também as aldeias morrem. Umas de morte violenta, sem apelo – e logo todos lembrarão Vilarinho da Furna, a que uma barragem roubou a vida (e o nome!), ou a aldeia da Luz que o Alqueva apagou para todo o sempre. Outras porém vão-se morrendo numa longa e lenta agonia que se confunde com os mornos dias que desmerecem crónicas e moralidades finais. É, ou foi, o caso da aldeia de Alto, na serra algarvia, entregue a um torpor de que não haveria notícia, como tantas vezes acontece, não fora o sociólogo inglês Robin Jenkins ter-se proposto escrever-lhe o testamento num livrinho que nos deixou.
Durante cerca de um milénio os camponeses de Alto, um lugarejo de pouco mais de vinte casas, perto de Alferce, viveram praticamente isolados do resto do mundo, cultivando os mesmos socalcos, irrigados pelos mesmos tanques de pedra que os árabes construíram no século IX, e morando em casas que quase não sofreram alterações desde que foram construídas há séculos. Viviam praticamente daquilo que era produzido no local. As poucas coisas que não conseguiam fabricar ou produzir era preciso trazê-las de burro em viagens de muitas horas. E um burro não carrega mais que seis arrobas de cada vez. O ferro para as ferramentas e para as ferraduras vinha-lhes das minas de Aljustrel, a sete dias de viagem. O arroz vinha de Sabóia a dois dias de caminho. E assim por diante. Tudo o resto era feito com a prata da casa: das plantas faziam cordas, dos juncos e dos vimeiros faziam cestos, do pinho cadeiras e mesas, da cortiça malgas, travessas e sei lá que mais. «Durante um milénio a vida em Alto era quase inteiramente o produto de uma tecnologia limitada que atuava no seio de uma geologia e de um microclima particulares. As pessoas comiam o que cultivavam e criavam os animais que se davam nas mesmas condições». Trabalhavam para manter o nível de subsistência que essas condições lhes permitiam. Praticamente não havia excedentes de produção, até porque não saberiam o que fazer com eles, se não fosse para oferecer ou para trocas entre amigos e vizinhos. Apenas podiam armazenar os produtos por um tempo limitado e não os conseguiam vender porque o mercado mais próximo ficava muito longe e não havia caminhos praticáveis para lá chegar. A vida da aldeia permaneceu assim quase inalterada de século para século, regulada pelas estações e as tarefas agrícolas que a cada uma delas cabe: semear, plantar, mondar, colher, apanhar o medronho que cresce espontâneo na serra para fazer aguardente, a matança do porco para salgar e comer durante o resto do ano. E havia que tratar dos socalcos em que assenta toda a produção local e que todos os anos têm de ser reparados, porque é daí que tiram tudo o que precisam: pão, azeite, azeitonas, grão de bico, feijão, castanhas, e sobretudo batatas. Sempre assim, praticamente sem alterações desde a Idade Média, «enquanto no resto do mundo o feudalismo dava lugar ao capitalismo, à revolução indistrial, ao imperialismo moderno e a duas guerras mundiais. As sociedades de consumo produziam comboios, autocarros, automóveis e aviões, eletricidade e todo o tipo de bens de consumo duradouros. À aldeia chegavam notícias de tudo isto pelos relatos de quem vinha de fora, mas o mundo exterior era qualquer coisa de longínquo, muito para além das montanhas.»
Em 1951 todo esse mundo entrou em Alto de roldão.
A construção de uma curta faixa alcatroada de dez quilómetros alterou irreversivelmente o pequeno mundo de Alto. A estrada de Monchique para Alferce foi aberta nesse ano, iniciando um ciclo que nada tinha a ver com a lógica da vida auto-suficiente da aldeia. Muitos dos filhos dos camponeses fizeram-se desde então à estrada, para o litoral dos hotéis, para Lisboa, para a Europa da CEE, como quem assim cortasse o inesperado cordão umbilical que ainda os ligava ao mundo fechado onde sempre tinham vivido. De um dia para o outro, tudo aquilo que antes tinha de ser transportado de burro durante longas horas ou dias pelo velho caminho do tempo dos mouros, pelo meio da serra, chegava-lhes agora pela estrada nova nos quinze minutos que os carros e camiões demoravam desde Monchique.
De tudo o que a estrada trouxe consigo talvez tenha sido o aparecimento dos adubos químicos a mudança que desencadeou consequências imediatas mais notáveis. Começou um novo ciclo, o ciclo dos adubos, e com ele a produção da batata por exemplo aumentou pelo menos vinte vezes. Pela primeira vez havia um excedente de produção e sobretudo um mercado onde o vender. Os camponeses começaram a ter acesso a bens (e a dinheiro!) que antes lhes estavam completamente vedados. Ao ciclo dos adubos segue-se logo após o ciclo do cimento e o ciclo do plástico que viram do avesso todo o sistema de produção antigo. O moinho fechou – o trigo era agora moído numa máquina elétrica em Monchique. Deixaram de se fazer os recipientes de barro e o cestos de vime – agora substituídos por baldes de plástico baratos. O chão de tijoleira das casas era agora de cimento, como de cimento passaram a ser os novos tanques de água. As novas condutas de plástico permitiam conduzir a água por terrenos acidentados e tornar desnecessários os velhos canais de pedra que exigiam cuidados incessantes.
Quando os fertilizantes começam a exigir doses cada vez mais elevadas, o rendimento das batatas diminui, o mercado deixa de absorver toda a produção, e também o dinheiro diminui . Mas a estrada nova traz consigo uma nova solução: é o início de um novo ciclo, o ciclo do eucalipto. As fábricas de celulose para o fabrico do papel oferecem contratos de 40 anos por parcelas de algumas centenas de hectares de terrenos em plena serra, onde antes só cresciam medronhos. Desbravam os terreno, abrem caminhos, pagam as despesas de plantação e os proprietários recebem vinte e cinco por cento do valor da madeira, sem terem de trabalhar. São poucos os que resistem à tentação. A plantação de eucaliptos é a nova corrida ao ouro. As terras altas da serra valem agora mais do que os estreitos socalcos regados à mão. De um momento para o outro passam de uma economia de subsistência, baseada num sistema de reprodução anual para um sistema de reprodução expansiva, de lucro, de acumulação. É um grande salto na maneira de viver e se calhar também na maneira de pensar. Em pouquíssimo tempo, como caudais represos durante séculos que subitamente vêem romperem-se os diques que os retinham, tudo muda de repente.
E possivelmente de forma irreversível: o ciclo dos eucaliptos «varrerá o velho mundo, as pessoas e tudo o resto, até porque as árvores invasoras estão a secar a água preciosa, e só ela torna possível cultivar e regar os socalcos. Os que se encontram na vertente sul da serra de Monchique já estão secos. E é apenas uma questão de tempo até a ribeira que passa na Foz do Açor secar nos meses de verão, tornando impossível viver aí.» O lençol de água das montanhas decresce de ano para ano. As árvores de fruto começam a secar. As hortas mirram. Assim que o nível dessas águas fique abaixo do das nascentes e dos tanques, só se conseguirá regar abrindo poços e puxando a água com bombas de extração. A terra esgotada pelo uso excessivo de fertilizantes pede cada vez mais água e já não consegue reter a humidade. Os socalcos já só servem para as culturas de inverno ou de primavera, e alguns começam a ser abandonados – ou plantados com eucaliptos.
Todo este processo inexorável que aqui fica resumido é exposto e estudado de forma detalhada por Robin Jenkins, o sociólogo inglês de que falei no início. Durante cerca de um ano, em 1976, viveu em Alto, cultivando alguns socalcos arrendados e tomando parte na vida da aldeia, «quase fazendo parte da família», deixando-nos o relato da experiência num livro que tenho estado a citar intermitentemente. Foi publicado em 1979, com tradução de Ana Bastos, na editora Querco entretanto desaparecida, e que durante a sua breve existência, deixem que aqui fique dito, nos deixou alguns poucos mas bons livros, pela mão de Eva Henningsen e de Jaime Reis. Chama-se o livrinho (são só 150 páginas) em português «Morte de uma aldeia portuguesa» – um título bem mais «explicativo» do que «The Road to Alto» [A Estrada para Alto] do original inglês.
É difícil, ao ler o livro, escapar a uma amarga e obscura sensação de que com a morte desta aldeia, e de tantas aldeias como esta, alguma coisa de nós morre também. Obscura certeza essa. A mesma talvez que faz com que Elói e Eulália, dois velhos camponeses se recusem a vender as terras aos eucaliptos, agarrados à vida na serra como sempre a conheceram, contra toda a lógica do progresso e contra a insistência dos filhos, que sabem ler e escrever e que vivem na cidade. Escreve Jenkins: «Uma coisa é certa – eles nunca assinarão um contrato para a cedência aos eucaliptais. Outra coisa é igualmente certa: mal eles morram, os filhos fá-lo-ão. Quando os montes estiverem totalmente cobertos de eucaliptos, isso será o indício de que essa mentalidade rural acabou por morrer.»
Ao ler o rol das devastações levadas a cabo a golpes de progresso e de civilização acelerados numa cultura milenar e que até aí resistiu a tantas mudanças, sentiremos talvez pairar sobre tudo isso uma vaga sensação de perda. Que por sua vez talvez assente numa boa dose de idealização da vida aldeã, de um certo revivalismo dos costumes tradicionais e dos ritmos sazonais de outros tempos que somos levados a crer imunes à alienação da vida urbana onde sentimos que a alma se nos vai. E é muito possível também que com isso se esteja a esquecer uma data de coisas bem reais que aí se podem esconder: uma tradição oral que se alimenta do analfabetismo e da maledicência das terras pequenas, querelas ancestrais e fúteis que dividem comunidades inteiras durante gerações inteiras, uma estranha familiaridade entre a doença e a morte, a predominância dos mitos sobre a inovação, a forte integração e conformismo sociais, o poder prepotente dos patriarcas que quase sempre confundem o amor com os casamentos de conveniência, uma subcultura feita de alcoolismo e de desespero e mais umas quantas coisas de que não falam normalmente as cantigas.
E não é por isso fácil estabelecer o ponto de equilíbrio entre a estabilidade e a previsibilidade da vida tradicional e a inevitabilidade das transformações operadas pela construção de dez quilómetros de estrada alcatroada. E também eu não o saberia dizer. Nunca fui a Alto e não faço ideia do que entretanto aí se passou. Não sei se se terá cumprido a profecia de Robin Jenkins de que «daqui a 20 anos (estava a escrever em 1976 ou 77) todos os camponeses de Alto terão morrido e a zona estará transformada num gigantesco eucaliptal». Alguém que me esteja a ler e que lá possa ir, que nos conte depois.
Na parte final do livro, Robin prevê que «o próximo investimento local de envergadura será provavelmente o turismo. Alto tem um excelente clima no Verão, a serra é excecionalmente bela e muitas das encostas têm vistas fantásticas», diz ele. Será esse o ciclo final, o ciclo do turismo? Com o que tem de subreptício, de insinuante, é bem capaz de fazer mudar de aldeia a qualquer um. O turismo, a voracidade de um certo tipo de turismo, poderia ser o ciclo final, capaz de desferir o golpe de misericórdia no que possa sobreviver de genuíno nos sítios onde lhe abrem a porta. E é difícil resistir-lhe, quando já se vendeu tudo o que tinha preço e já só a alma resta. Para quem resistiu até aqui a todas as tentações mais venais será essa talvez a forma mais rápida e eficaz do mudar de aldeias.
Não há como escapar, não há por onde escapar, de uma maneira ou de outra o dia a dia de Gaza em agonia insinua-se no nosso dia a dia. E com isso começamos a entrever a resposta para a pergunta que tantas vezes nos pusemos a propósito de outros tantos crimes igualmente tremendos praticados diante dos olhos de toda a gente: como foi possível? Agora sabemos. Só não sabemos o que havemos de responder quando a pergunta nos for feita a nós. E não poderemos dizer que nada sabíamos. Ainda que a queiramos ignorar, a questão de Gaza vem ter connosco, dia a dia, às vezes da maneira mais inesperada.
Ainda há pouco, numa rua perto de mim. Ia eu a descer da Graça para Lisboa e às tantas reparo em duas meninas dos seus vinte e tal ocupadíssimas a rasgar e a arrancar uns cartazes com que certamente embirravam. Quando me aproximei vi que era um cartaz de uma manifestação pró-Palestina. Não resisti a tentar perceber a razão de tal raiva. Em inglês, disseram: «Somos israelitas». Para elas seria razão bastante e talvez achassem que também para mim o seria. «Mas porquê arrancar os cartazes? Em Israel não há liberdade de expressão?» O que eu fui dizer! Saíram-se com um um «Fuck them all», que não sei como hei de traduzir, mas não deve ser coisa doce. Nesse momento um rapaz que tinha ficado afastado a filmar a ação do comando aproximou-se e disse-lhes «Vamos embora». E foram-se dali com a missão cumprida.
O ódio é uma emoção complexa que não se deslassa com boas palavras, que convoca forças profundíssimas e avassaladoras que dominam por completo os que se deixam possuir por ele. E que ao mesmo tempo arrasa tudo o que lhe surge de permeio. Entre as vagas do mar de ódio justiceiro de Israel e a rocha do ódio cego do Hamas, não há espaço para a vida. Quando tal mar bate em tal rocha quem sofre é quem está de permeio, e que não tem escolha. Gaza não é mais do que o peão de um xadrês que ninguém pode ganhar. Nem parar.
O que há a dizer já foi dito. Seria agora a hora de fazer o que há a fazer. E é daí que nos vem esse sentimento de impotência, de culpa, de indignação e de impotência, de pensar que não podemos, nós, fazer nada. Pode exigir-se ao Hamas a libertação imediata e incondicional dos reféns cobardemente raptados na incursão de 7 de outubro de 2023. Não é possível pactuar com um crime destes e muito menos aceitar que o resultado desse crime seja agora usado como uma arma. Isso deveria ser indiscutível. Mas poderá discutir-se com o fanatismo cego e surdo? Pode exigir-se a Israel o fim imediato da matança que o exército prossegue inexorável e indiscriminada contra a população de Gaza. Isso deveria ser indiscutível. Mas poderá discutir-se com tamanha cegueira e surdez ao que há de mais elementar na nossa comum humana condição?
Falei aqui há tempos de uma discussão com uma amiga minha sobre os dois pesos e duas medidas com que normalmente é tratado Israel (https://ze-lima.blog/2024/04/10/dois-pesos-e-duas-medidas/) E de como concordei com ela: Somos mais exigentes com Israel, é verdade. Em nome dos valores que partilhamos (ou dizemos partilhar, e que usamos como argumentos na defesa de Israel). E sobretudo, sobretudo, era o que eu lhe dizia, porque ao criticar Israel tínhamos a noção de que havia a possibilidade de mudar o seu comportamento. Havia a possibilidade de corrigir os seus erros – havia em Israel instâncias, instrumentos capazes de dar ouvidos às críticas. O que não acontece em relação ao Hamas. Havia também em Israel vozes que se levantavam e se faziam ouvir, as vozes dos justos, como dizíamos.
Havia – mas ainda haverá? Talvez haja. Ainda há em Israel quem seja capaz de dizer: «Basta. Já matámos o suficiente. Já destruímos o suficiente» e que defenda o direito dos palestinianos a viver no seu próprio estado, como o fez há pouco Ehud Olmert, primeiro-ministro de Israel antes de Netanyahu, numa entrevista publicada no Expresso (22/8/2025). E quase todas as semanas nas ruas de Telavive tem havido manifestações a exigir o fim da guerra e a demissão de Netanyahu. Serão afinal antissemitas os milhares de israelitas que se manifestam em Telavive, como têm sido consideradas por vários governos cúmplices de interesses inomináveis as inúmeras manifestações em toda a Europa e um pouco por todo o mundo a defender os direitos dos palestinianos?
Quem ainda hoje questiona o silêncio e a cumplicidade com que grande parte da Europa assistiu às perseguições nazis contra os judeus da Alemanha e da Europa, não pode aceitar o mesmo silêncio e cumplicidade diante dos crimes que se cometem em Gaza. Em nosso nome não, há que dizer. E há que não nos deixarmos enredar em discussões especiosas sobre que nome dar ao crime: se genocídio, se limpeza étnica, se retaliação desproporcionada, se… O que quer que se lhe chame, é um massacre, uma matança, um crime. Não se trata de uma guerra de palavras entre juristas. Não se trata de um crime que se possa apagar apagando a palavra que o condena. Isso talvez seja o que acreditam os que andam aí (não sei se serão os do comando que vi a rasgar cartazes…) a apagar as palavras de que não gostam nas paredes de Lisboa. *** Mais um acrescento: se tiverem ocasião, leiam também um texto aqui publicado há tempos, que parece que não vem a propósito, mas vem : https://ze-lima.blog/2024/02/06/esta-voz-nao-me-sai-da-cabeca/
Isto já foi há tanto tempo que se calhar já poucos se lembrarão de quando Iavé, o Deus da Bíblia, depois de criar os céus e a terra, os animais e as plantas, decidiu criar o homem e a mulher e entregar-lhes o jardim na parte leste do Éden onde poderiam ficar a morar. Era um jardim onde havia de tudo, do bom e do melhor, e de tudo o homem podia comer e servir-se (e a mulher também, imagino, embora no Génesis Iavé apenas fale com o homem e seja quanto ao resto pouco explícito nesta matéria. Será talvez a primeira vez, mas não é certamente a última). Comer de tudo não. Porque em letras pequeninas, no fim do contrato havia mais qualquer coisa que o bom do Adão se dispensou de ler e que, como depois se veio a ver, trazia muita água no bico. Dizia a cláusula assim ignorada: «Podes comer do fruto de todas as árvores do jardim; mas não comas o da árvore do conhecimento do bem e do mal» (sic).
Isto passou-se há muito muito tempo e quase de certeza que já todos se esqueceram. Não eu. E não eu porque praticamente todos os dias, no jardim para onde o meu cão teima em me arrastar, há duas árvores que inevitavelmente me fazem lembrar o mito original e a sina com que carregou toda a humanidade até ao fim dos tempos. Porquê, é o que já contarei.
Uma dessas árvores nunca cheguei a perceber o que seja. Se como dizem é pelos frutos que se vê a árvore, nunca me foi dado ver em que viriam a tornar-se estes que nunca chegam a amadurecer, se pêssegos, se alperces, se damascos. A outra árvore é uma romãzeira. Só quem conhece o esplendor de uma romãzeira em flor, o despontar do pequeno embrião do fruto, o crescente rubor que há de (haveria de…) culminar numa verdadeira granada de beleza inexcedível, só esses poderão compreender com que pena, com que amargura, com que revolta fico a olhar os frutos ainda verdes todos espalhados pelo chão, arrancados à toa da árvore que esperava oferecê-los mais tarde a quem passasse. E o pessegueiro (ou o que seja) a mesma coisa, todos os anos a mesma coisa: tudo arrancado, desbaratado sem dó nem piedade.
O jardim é de todos, o que também quer dizer de ninguém que o cuide ou defenda. E todos os anos chega o dia em que no jardim deparo com a mesma maldade inexplicável. Estivesse a romãzeira num jardim a que alguém chamasse seu e, mesmo sem muros ou arame farpado à volta, ninguém lhe poria a mão sem pronta resposta do dono. Muito provavelmente até teria já ali ao pé dela os querubins de espada flamejante que Iavé pôs a guardar o caminho da árvore da vida. Ninguém me tirou nada que fosse meu, é verdade. E assim me apercebo de que, mais do que o crime, o que me revolta é o que nele há de estúpido e de gratuito. E, mais do que muitas coisas bem piores, é isso no fundo o que mais me deixa às voltas com o que há de insondável e de irredimível nesta maldade sem ódio, quase como se fosse um pecado original, que ninguém cometeu, mas nos coube em sorte como uma espécie de herança genética que não se pode renegar nem combater.
É aqui que agora surge o Jean Némar, meu amigo e confessor, que tem chave da casa e entra e sai a seu bel-prazer. Menos dado a grandes especulações, aproveita como sempre para me contradizer: «E é por causa de uma maçã que tu me vens com todo este arrazoado?» E não, não é. Mas percebo o que ele quer dizer, apesar de não ter ouvido metade do arrazoado. Todo o resto da turma compreendeu claramente que não era propriamente de maçãs ou de romãs que se estava a falar. E sei perfeitamente que, para falar do mal (ou do Mal, com maiúscula e tudo) muito mais haveria por onde se pegar. Basta ver os telejornais num dia qualquer e a qualquer hora. Ou folhear qualquer livro de História, de qualquer época e de qualquer ponto do mundo). Mas não é isso, não estou a falar, desse Mal (chamemos-lhe assim) que sempre aparecerá envolto em álibis e justificações, de uma maneira ou de outra. A Humanidade, julgada por tais exemplos, sempre achará que tudo o que produz resultados, tudo o que melhora o quinhão de alguém, mesmo à custa de outros, não é um Mal é antes um Bem. Um bem pragmático, operacional, se quiserem, mas um bem. E não há guerra nenhuma, nenhum massacre, nenhuma massa de ódio, que não invoque um qualquer contrapeso a justificá-lo. Muito haveria a dizer sobre a matéria, mas hoje não é isso que está no sumário.
É outra coisa: essa maldade difusa, sem nada a justificá-la, quase sem ódio, que vemos cada vez mais presente por todo o lado. Sempre existiu, claro, mas é hoje mais visível, mais difundida, até mais copiada. E de tal modo que nem sequer já hoje nos surpreende como soía. Hoje, a surpresa, o espanto, quase o reservamos para o contrário: um gesto de simpatia inesperada, um aceno espontâneo sem nada que o justifique a não ser partilhar a nossa comum humanidade.
É disso também que de certo modo fala o poeta Manuel Resende, numa anotação irónica sobre o que pode haver de intrigante no desajustamento do nosso olhar sobre esta farsa involuntária em que todos nos vimos metidos (em «O Mundo Clamoroso, Ainda», depois incluiudo em «Poesia Reunida», Edições Cotovia, 2018, pag. 215). Aqui o deixo:
Na auto-estrada
Ainda posso perceber Esses miúdos nos viadutos Que atiram pedras aos carros da auto-estrada. É um gesto eficaz Que matou alguns caixeiros-viajantes, E até famílias inteiras, É pura malvadez E o mundo precisa de pureza.
Mas como se justificam esses que nos acenam Com alegria ao passarmos?
Hoje, queria apresentar-lhes o Philip Levine. É um poeta americano que acabei de conhecer e achei que também quem isto lê havia de gostar de saber o que ele anda (andou…) a fazer por aqui. Conheci-o num artigo de um jornal americano e ao mesmo tempo descobri uma poesia inesperada, que respirava o cheiro acre dos ácidos das grandes fábricas de galvanização da Detroit da década de 1930, o ar envenenado das cadeias de montagem de automóveis, o inferno dos tanques de decapagem. Não é comum um universo poético onde o ácido nítrico, o ácido sulfúrico, os solventes industriais servem de alimento a imagens tão poderosas da alienação do trabalho e da solidão do operário roubado de si próprio pela sua segunda vida nas cadeias de montagem e nos turnos da noite. E no entanto foi esse o mundo onde Levine viveu pelo menos desde os 14 anos de idade quando, depois da morte do pai, teve de alternar a escola com os turnos da noite nas grandes fábricas de Detroit, onde os pais, judeus emigrados (ou fugidos) da Rússia das primeiras décadas do século passado, tinham ido encalhar. Mais tarde conseguiu acabar a escola e veio a licenciar-se (em 1950), mas ainda sem poder escapar ao «trabalho estúpido», como ele lhe chamou, nas linhas de montagem da Cadillac e da Chevrolet ou como condutor de camião na Railway Express, até conseguir dar aulas em algumas universidades e vir a ser professor no departamento de inglês na Universidade da Califórnia de 1958 até 1992, quando se reformou.
Não é que biografia seja poesia. Por mais invulgar e extraordinária que seja, a experiência pessoal ou a visão do mundo de um autor não é forçosamente uma garantia de boa literatura ou de boa poesia. Pelo menos se se ficar por aí. Serve de raiz onde a poesia vai buscar força para as suas imagens, para dar vida às palavras que usa. Isso sim, mas não muito mais. Como dizia o bom do nosso O’Neill: «Conforme a vida que se tem o verso vem», mas também diz – há que não esquecer – que «se a vida é vidinha, já não há poesia que resista».
Alguém chamou a Levine «o poeta do turno da noite». É talvez uma fórmula feliz, mas como todas as fórmulas é também uma maneira redutora de dizer as coisas, apenas um princípio de conversa, digamos assim. Mas é uma fórmula que pegou, e que sempre virá ao de cima, sempre que dele se fale. E pegou porque tem uma forte parte da verdade: os versos de Levine trouxeram para o chão da poesia um mundo e as personagens que o habitam que raramente se viam fora das reportagens jornalísticas ou dos documentários politicamente empenhados. A Detroit dos anos 30 – capital do mundo industrial americano, que servia de locomotiva à recuperação da grande crise de 1929 que abalara a nação americana e o resto do mundo – serve de pano de fundo e de alimento à visão poética de Levine, às imagens ainda hoje inesquecíveis das filas de desempregados, das linhas de montagem das «3 grandes» (Chrysler, Ford, General Motors), do mundo desolado e sem esperança da realidade operária da época. Mas só é assim porque na sua visão poética, feita à medida da sua particular história pessoal, avessa aos grandes sentimentos, objetiva e humilde, há uma dimensão que transcende a ideia de classe, do lugar e mesmo do tempo de onde parte.
Desde o primeiro livro (“On the Edge”, 1963), Levine escreveu mais de uma vintena até à sua morte, em 2015, tendo merecido o reconhecimento de alguns dos prémios literários mais importantes dos EUA. Não será um critério definitivo, mas alguma coisa quererá dizer: em 1979, “Ashes” recebeu o Prémio nacional dos críticos literários e em 1980 o Prémio Nacional do Livro; e em 1979, “The Simple Truth” recebeu o Prémio Pulitzer de Poesia. Até agora li apenas um livro dele («What Work Is»), publicado em 1991, que recebeu o Prémio Nacional do Livro, e que foi o livro que mo deu a conhecer. No poema «O que é o trabalho» que dá nome ao livro, um operário numa fila de desempregados à procura de trabalho à porta da Ford pensa ver o irmão uns dez lugares mais à frente. Percebe depois que se enganou, que a essa hora o irmão devia era estar em casa a recuperar das oito horas do turno da noite na Cadillac, e fica a pensar que não o vê há muito tempo, que há muito tempo não lhe diz que pensa nele, que gosta dele. Não por ser novo, ou estúpido, ou egoísta, mas simplesmente porque não sabe o que é o trabalho. É essa poderosa imagem da fla de desempregados, do desencontro das emoções sentidas pelo operário do poema, que dá força à ideia de alienação, do distanciamento que sente em relação a si mesmo, porque não sabe (ou não tem consciência) de como o trabalho lhe rouba a vida, e o rouba a coisas tão naturais e tão óbvias como o amor do irmão.
De certo modo pode dizer-se que a força dos poemas de Levine, assenta nas imagens do mundo real, do mundo operário que retrata, mas vem-lhe acima de tudo de outra coisa, do que não está dito, daquilo que constitui a essência da linguagem poética. E por isso sobrevive ao tempo e ao lugar em que foi escrita. Os operários dos poemas hoje terão sido provavelmente substituídos por robôs, e da Detroit dos anos 30 pouco mais restará que a memória e os retratos dramáticos dos fotógrafos da época, mas o que ficará para sempre, porque tem a ver com o que há em nós de mais profundo e incomunicável, é precisamente esse «não dito» que só a poesia pode trazer ao de cima.
Há neste livro um poema extraordinário («Fear and Fame») que pode servir de resumo à técnica de construção do poema de Levine e a esta dimensão poética, que está para além da simples realidade do retrato. O poema descreve passo a passo a descida do operário do turno da noite ao fundo dos tanques de decapagem de uma fábrica de galvanização como uma descida aos infernos empreendida por um Orfeu dos nossos dias, e detalha rigorosamente a receita com que «cozinha» a mistura de solventes que usa como se fosse uma preparação culinária em que os ingredientes fossem ácidos industriais (ácido clorídrico, nítrico, sulfúrico). Ao descrever o equipamento de segurança que o operário tem de vestir, Levine evoca subliminarmente os cavaleiros das gestas antigas, com seus elmos e guantes, de partida para missões quase sagradas e destinadas à Glória, de onde há de voltar com uma mensagem do Reino do Fogo. É precisamente a grandiosidade da gesta, os riscos e perigos que a envolvem, que haverá de dar o sentido da chave do poema, o regresso ao Reino da Luz (o piscar das luzes das instalações industriais), recebido não com aplausos e glória pelos que o esperam, mas antes pela banal indiferença devida ao anonimato das tarefas afinal rotineiras e inglórias que cabem a todos por igual no mundo comum a homens e mulheres como ele.
Copio-o aqui (na tradução que dele fiz) para edificação e gozo de quem me lê. E se gostarem podem pedir mais, que ficará para outra vez, ou para outro livro dele que me chegue às mãos.
Medo e Glória Meia hora a vestir-me, galochas largas até ao quadril, guantes até ao cotovelo, um elmo de plástico como o dos antigos cavaleiros mas com uma janelinha de vidro sempre embaciada, e um respiradouro para poupar os pulmões estragados pelo fumo. Descia passo a passo para o mundo sombrio do tanque de decapagem e aí preparava as novas misturas dos grandes garrafões de ácidos que me faziam chegar com cordas – tudo seguindo uma receita que não revelava a ninguém e que aprendi com Frank O’Mera antes de ele ter ido matar-se a beber nos bares da Vernor Highway. Um galão de ácido clorídrico a jorrar fumegante das largas bocas de vidro, uma pitada de pálido nítrico para levantar fervura, sulfúrico para reduzir, metais como adoçantes, solventes como sais, até ter a certeza que o guisado fervente estava pronto. Depois voltar a subir, degrau a degrau majestoso, o herói de regresso ao piscar das luzes banais do turno intermédio na Feinberg and Breslin’s, Tubagens e Galvanizações de Qualidade, trazendo uma mensagem do Reino do Fogo. Curiosamente ninguém saudava o meu regresso, e eu ficava ali de armadura posta enquanto o chuveiro de água fria caía sobre mim e os resíduos fumegantes empoçavam a meus pés como se fossem leite e neve fundente. Depois despir tudo de volta às calças e camisa de trabalho, os sapatos de rua pretos e meias brancas de algodão, reassumir o meu apelido, pôr o Bulova no pulso, enfiar de novo a aliança no dedo, e gargarejar com água da torneira a desfazer o melhor que podia o amargor. Por uns quinze minutos ou mais sentava-me em silêncio à margem do mundo enquanto as mulheres poliam os tubos e acessórios até à pureza reluzente pendurados como enfeites de Natal nos suportes arrastados lentamente em direção aos tanques do meu cozinhado. Tinha pela frente o segundo cigarro, seguro na mão tremente, enquanto absorvia enjoado o calor que aplaca o calor, um almoço de duas sanduíches de salame de Génova e queijo suíço no espesso pão caseiro feito pela minha tia Tsipie, e um terceiro cigarro para apagar o gosto dos outros. A seguir levantar-me e voltar a vestir o traje do meu ofício pela segunda vez nessa noite, endurecido pela consciência de que descer e remontar do outro mundo uma única vez em oito horas é só metade do que leva a ser reconhecido num mundo de mulheres e homens.
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